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segunda-feira, 30 de novembro de 2020

Por que parei de votar nulo



Fiz meu título de eleitor aos 16 anos, antes de ser obrigatório (difícil acreditar que já se passaram mais de 20 que eu voto). Na adolescência eu era um “rebelde sem causa” que não via a hora de poder votar e cagar regra sobre as eleições. Mas, logo que comecei a votar, acabei assumindo um padrão que se repetiria frequentemente: escolher um candidato em primeiro turno, e anular o voto no segundo.

A justificativa para o voto nulo mudou com o tempo. No começo, tinha contornos liberais: numa democracia, voto nulo é tão válido (trocadilho intencional) quanto votar num candidato, pois é uma escolha individual. Com o tempo, a justificativa caiu num idealismo democrático: votar em quem eu realmente acreditava que seria a melhor escolha (como 99% das vezes essa pessoa não existia pra mim, o nulo era mais regra que exceção). Por último, minha justificativa evoluiu para um modelo mais anarquista: não acredito no sistema, ele não funciona, etc, então me abstenho dessa farsa que é chamada de “festa da democracia”.

É o que todos fazemos, na verdade. Vivemos pensando que nossas decisões são racionais, mas na maior parte das vezes, isso está longe da verdade – especialmente decisões sociopolíticas. Pensamos que os motivos nascem antes da escolha, mas é o contrário: geramos nossas crenças baseadas em diversos fatores (alguns completamente aleatórios, outros fora do nosso controle), e só depois nosso cérebro corre atrás de justificar essas crenças.

Independente disso, todas as minhas justificativas eram válidas. Mais do que válidas, são verdadeiras até certo ponto. Mas são justificativas que, embora diferentes, compartilham uma limitação fundamental: a incapacidade de entender o conceito de sociedade.

Embora a gente entenda de maneira ampla que faz parte de uma sociedade, na prática não nos comportamos de acordo. No dia a dia, vivemos NA sociedade, mas não EM sociedade. Vamos pensar da seguinte maneira: nós, brasileiros vivemos em um agrupamento chamado “sociedade brasileira”, onde vivemos e convivemos com uma estrutura em comum. Isso quer dizer que não há um aspecto da nossa vida que não seja social: a roupa que usamos, a casa que moramos, o computador que digitamos, o emprego onde trabalhamos… todos esses aspectos da sociedade exigem outras pessoas que impactam cada um, e cada um tem ao menos algum impacto no todo. Trocando em miúdos: você não vive num mundo onde tem que plantar/matar a própria comida e extrair você mesmo os minérios e petróleo da terra e manipulá-los para construir seu computador ou seu carro com as próprias mãos. Imagina só se realmente fosse assim.

Ou seja, viver em sociedade vai além de entender que o dinheiro que o governo usa é o seu dinheiro e que tudo o que é construído pelo governo, prefeituras, etc, é público, portanto é seu. Também envolve entender que cada grupo de cientistas que criou um remédio, cada grupo de trabalhadores que ajudou a garantir transformações políticas, cada médico, cada pedreiro, cada professor, cada policial, cada bombeiro, cada empresário, afeta o todo. Realizam ações que, isoladamente, podem parecer pouco ou nada. Mas nada dentro de uma sociedade é isolado – esse é exatamente o ponto de construir uma.

Também implica que todo o conforto material que você possuiu depende unicamente dessa estrutura social. Sem uma estrutura que pudermos usar, nem todo o dinheiro do mundo compraria a vida que você tem hoje. Nem todo dinheiro do mundo garantiria que você tivesse o celular mais avançado do momento, porque mesmo que você fosse capaz de pagar por máquinas para fazer todo o trabalho, ainda precisaria de pessoas para projetar essas máquinas e construí-las em tempo hábil. A própria estrutura da internet depende de uma sociedade ainda mais abrangente, global, para alimentar a rede. Mesmo que a estrutura tivesse surgido num passe de mágica, sem depender de pessoas, o que faz a internet ser a internet é seu conteúdo, produzido por milhões de pessoas, não sua infraestrutura.

Vivemos na sociedade no sentido em que nos aproveitamos dessa estrutura como bem entendemos. Usamos e abusamos dela, sem fazer perguntas. Afinal, ela está ai pra ser usada. Não vivemos nossa vida nos baseando no quanto somos parte dessa estrutura, não apenas usuários dela. Não lidamos com nosso dia a dia entendendo que não estamos nessa rede; somos essa rede. Nessa visão, sociedade é apenas um agrupamento aleatório de pessoas. Viver em sociedade é pensar como comunidade. É entender que, muito embora cada um de nós tenha desejos e interesses próprios, cada ação individual pública reverbera na comunidade, afetando-a, movendo-a, modelando-a… ou destruindo-a.

Não há exemplo mais claro que a pandemia do Coronavírus. Se proteger e acatar as medidas de segurança é, ao mesmo tempo, uma decisão individual e uma decisão coletiva. Não é uma atitude que vai afetar você e ninguém mais. Vai afetar diretamente todas as pessoas da rede que chamamos de “sociedade”. Em outras palavras, viver NA sociedade é acreditar que você tem o direito de não usar máscara e não acatar o “acordo coletivo” de se cuidar. Viver EM sociedade implica entender que decisões individuais afetam o todo e, portanto, você é tão responsável pela sua saúde quanto é responsável pela saúde de toda a comunidade.

A pandemia é o exemplo mais óbvio mas, em maior ou menor nível, qualquer atitude individual que implique interação com o resto da rede que chamamos de sociedade é também uma decisão coletiva. Pode ser uma decisão como usar máscara e ouvir a ciência, ajudando a salvar vidas. Pode ser a decisão de ignorar os riscos e condenar vidas – inclusive a sua.

Você pode argumentar que isso é inevitável, que somos naturalmente egoístas. Não vou entrar no mérito do quanto essa opinião é simplista e mal informada em relação às evidências científicas que temos. O que importa é que, mesmo que esse fosse o caso, pensar no coletivo é também pensar em si mesmo. Sem a estrutura social que sustenta seus confortos, não existe conforto. Garantir a continuidade e a saúde dessa rede é seu interesse particular também.

Não importava a justificativa que eu dava pra mim mesmo para votar nulo, minha mentalidade se resumia a uma coisa só: a incapacidade de entender que, defendendo minha escolha individual (nesse caso), eu estava passando uma mensagem muito clara: embora eu me aproveite dos recursos que a sociedade proporciona, eu não estou interessado em manter a saúde dela ou melhorá-la. Era um parasita, querendo o bônus sem o ônus. Uma praga que toma o que quer, se reproduz e depois vai embora, deixando tudo destruído.

Eu sei que a comparação parece exagero porque é mais fácil ver causa e consequência no que uma praga de gafanhotos faz do que no que nós fazemos. Nossa sociedade é complexa e as cadeias, cheias de detalhes. Frequentemente uma mudança significativa leva tempo para reverberar (seja ela boa ou ruim), então quando já está consolidada, é difícil rastrear sua origem (o que faz com que frequentemente a gente ponha a culpa nos acontecimentos mais óbvios e próximos no tempo). Na maior parte das vezes é impossível rastrear todos os passos da cadeia e saber qual é mais ou menos importante. Mas juntos, cada detalhe importa. Cada um importa.

Então eu parei de votar nulo quando entendi que, não importava minha justificativa, era apenas uma tentativa de justificar uma decisão egoísta e epistemologicamente limitada. Levava em consideração minha posição privilegiada e confortável de fingir que a sociedade não me beneficia e ignorava o mais importante: que eu sou tão parte da cadeia social como todo mundo, e que minha atitude perante a decisões importantes na manutenção/mudança/continuidade da rede vai afetá-la – para o bem e para o mal.

Liberdade individual precisa parar de ser desculpa para não pensar no coletivo. Comunidade é entender que somos indivíduos, que temos nossos próprios desejos, mas que eles só podem ser alcançados baseados no quão saudável e forte é essa rede complexa que chamamos de sociedade. Comunidade é entender que não estamos na rede; somos a rede. Que não somos o barco se movendo pela corrente. Nós somos a água. Nós fazemos a corrente.

Você tem todo direito de votar nulo, branco ou se abster do voto. De não querer eleger os mesmos de sempre, de evitar cair nos mesmos vícios de nós contra eles. Mas é uma decisão individual, que ignora a importância que você tem para o contexto social geral. É a versão política de não usar máscara durante uma pandemia. Vai te beneficiar no curto prazo, mas pode prejudicar a sociedade inteira a médio e longo prazo. E a sociedade inteira inclui você mesmo. E, quando as consequências da sua escolha individual chegarem a você, é provável que não seja capaz de rastrear isso até seu voto e aponte outros elementos responsáveis por suas mazelas. Mas isso não vai mudar o fato de que a semente inicial do problema estava lá, naquela decisão de fingir que não é parte da sociedade.

Então eu parei de votar nulo. O que torna a noção de voto muito mais estressante. No momento que você pensa no seu voto como um ato coletivo, as responsabilidades aumentam muito, pois não é só a sua vida que está em jogo. É estressante, chato, complicado. Envolve pesquisa, se engajar em discussões. Envolve ouvir diversos lados. Envolve mudar quando se percebe que está errado. Envolve ser capaz de reconhecer que você concorda com alguém em alguns pontos, mesmo que discorde de todo o resto. Envolve entender que mesmo quem pensa diferente de você tem lugar na sociedade. E envolve entender que atuação social e política não se faz apenas de 2 em 2 anos.

Viver na sociedade é um privilégio. Viver em sociedade é um compromisso. Um compromisso que ou você assume de forma plena, sem atalhos, ou fica na margem, se aproveitando dela. Sei que parece mais confortável – e individualmente mais benéfico - a segunda opção. Mas gafanhotos podem se aproveitar da colheita só até ela acabar. Depois, não há o que possam fazer a não ser procurar outra colheita, e outra, e depois outra… Mas quando acabarem todas as colheitas, a farra dos gafanhotos terá fim.

Então eu parei de votar nulo nos segundos turnos. Já faz anos, mas ainda assim, foi um pouco tarde. Sei que esse texto não vai mudar a cabeça de ninguém e nem sei se era esse mesmo meu objetivo. É mais um desabafo. Ou minha contribuição para essa rede que a gente chama de sociedade. Ou ambos.

terça-feira, 3 de novembro de 2020

O dia em que o mundo se uniu pelo futuro do planeta (sim, isso realmente aconteceu)

 



É difícil acreditar, mas teve uma vez que a humanidade se uniu em prol de um objetivo comum. E esse objetivo era o meio ambiente. Não só isso: era um problema que talvez não fosse afetar as autoridades da época, apenas as gerações seguintes. Eu sei, eu sei, parece fantasia considerando o contexto atual, mas aconteceu. Foi quando banimos os gases CFC para evitar o aumento do buraco na camada de ozônio. Se você tem menos de 30 anos, provavelmente nunca ouviu falar dos CFCs. Talvez nem mesmo tenha ouvido falar de um “buraco” na camada de ozônio. E isso só mostra o quanto essa iniciativa foi bem-sucedida.

A história começa lá nos anos 70 (bom, na verdade começaria com o início da formação do planeta, mas vamos pular essa parte), quando cientistas descobriram que a camada de ozônio estava ficando mais fina especialmente nas regiões polares, o que eles chamaram de “buraco”. Para quem não sabe (me sinto estranho tendo que explicar isso, mas enfim), ozônio é um tipo de molécula de oxigênio que, ao contrário do que O2 respiramos, é tóxica para seres vivos no contato direto. Mas lá na estratosfera, longe da gente, tem uma “capa” de ozônio natural que envolve todo o planeta e que, ironicamente, é uma das grandes responsáveis por manter a vida na Terra, pois ajuda a bloquear a forte radiação ultravioleta do sol (mais sobre isso aqui). Quanto maior o “buraco”, mais radiação ultravioleta o planeta recebe e em determinado ponto a vida na terra se torna inviável.

Com o tempo, se descobriu que um dos responsáveis pelo buraco na camada de ozônio eram os clorofluocarbonetos, carinhosamente conhecidos como CFCs. Era preciso parar com o uso de CFCs ou em algumas décadas a Terra seria um lugar bem diferente, talvez até inabitável. O problema era que os CFCs eram usados para muita coisa do dia a dia, como em líquidos refrigerantes (usados em coisas como geladeiras e ar-condicionados), solventes e todo tipo de produto aerossol (incluindo produtos para cabelo que eram muito populares nos anos 80). Os CFCs estavam completamente inseridos no dia a dia das pessoas, principalmente nos países desenvolvidos, e eram parte significativa da manutenção do luxo e do conforto da classe média e alta desses países.

A descoberta do buraco na camada de ozônio foi publicada em 1974 e já em 1976 a Agência Nacional de Ciências dos EUA publicou um relatório confirmando os resultados. Mas a associação da diminuição da camada de ozônio com a liberação de CFC no ar só viria a ser feita em 1985, quando cientistas fizeram a comparação entre a diminuição de ozônio e o aumento de moléculas de CFC na atmosfera.

Acredite se quiser, a metáfora do “buraco” na camada de ozônio e o alerta sobre suas futuras consequências funcionou. Ainda em 1985, 20 países, incluindo os maiores produtores de CFC assinaram o que ficou conhecido como “Convenção de Vienna”, que estabeleceu uma estrutura de negociação para regulamentar internacionalmente substâncias capazes de ferir a camada de ozônio.

Mesmo com as empresas que faziam parte da indústria do CFC (companhias grandes como a DuPont) fazendo grande lobby para minimizar os resultados científicos, líderes de diversos países continuaram a levar adiante a agenda para a proteção da camada de Ozônio e, em 1987, foi criado o Protocolo de Montreal, um acordo de nível internacional que bania o uso de CFCs e outros gases nocivos à camada de ozônio e incentivava a criação de tecnologias alternativas.

Surpreendentemente (e, de novo, eu sei que parece mentira, considerando o mundo em que vivemos hoje), o acordo funcionou. Foi colocado em prática e, com o tempo, o uso de CFCs praticamente cessou, o que permitiu à camada de Ozônio se recuperar. É por isso que hoje você não ouve mais falar do tal buraco na camada de ozônio.

Eu não sei dizer exatamente o que levou as pessoas a levarem a sério a ameaça da camada de ozônio naquela época enquanto que mais de 30 anos depois as pessoas não conseguem nem concordar em usar uma droga de uma máscara para ajudar a proteger a si e seus entes queridos. Mas dá para dizer que os EUA teve papel fundamental nesse acordo. Desde o começo o governo levou a ameaça a sério, financiando novos estudos sobre a camada de ozônio, reunindo aliados e trabalhando em busca de um pacto global para o controle desses gases. Mais uma vez, eu sei que parece surpreendente, mas o senado americano foi unânime na decisão de controlar os CFCs e proteger a camada de ozônio. Tanto democratas quanto republicanos se engajaram nessa luta. 



Os CFCs não se foram completamente. Ainda há emissões residuais desses gases que têm retardado a recuperação total da camada de ozônio. Ainda assim, é impressionante pensar que meras 3 décadas atrás o mundo foi capaz de se unir em prol de uma causa como essa. Eu sei que pode haver outros exemplos, mas esse é importante por um aspecto muito particular. O buraco na camada de ozônio era um problema corrente, mas uma ameaça futura, assim como é o aquecimento global. O que os países fizeram foi chegar a um acordo sobre algo que não os afetaria naquele momento, mas afetaria seus filhos e netos. Não há muitos exemplos em que o mundo se uniu em prol de uma causa que não era imediata.

O que aconteceu de lá pra cá? Como conseguimos banir os CFCs, mesmo com empresas poderosas por trás, mas não conseguimos chegar a um consenso sobre aquecimento global? Pior, como é que não conseguimos nem mesmo concordar em nos cuidar e cuidar de outros em meio a uma pandemia? Eu não estou exagerando quando digo que todos os dias que entro no twitter, eu me pergunto isso. Me pergunto para onde foi esse mundo que estava disposto a colocar quaisquer outras diferenças de lado (e acredite, haviam muitas diferenças, especialmente políticas, naquela época) por algo que fosse um risco a vida e ao futuro de todo mundo. E eu sinceramente não tenho respostas. Mas o fato disso já ter acontecido antes mostra que é possível. Ou foi. Espero que um dia seja de novo, antes que seja tarde.

quarta-feira, 14 de outubro de 2020

sexta-feira, 9 de outubro de 2020

Canal no Youtube sobre cérebro, consciência e coisas relacionadas

Inaugurei um canal no Youtube sobre assuntos relacionados a mente, cérebro e consciência.

A ideia é falar sobre esses assuntos de forma didática, trazendo perspectivas filosóficas e científicas, além de eventuais novos desenvolvimentos nessas áreas.

O primeiro vídeo já está no ar, confira:



Art - Ilustração

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