“We work in the dark - we do what we can - we give what we have. Our doubt is our passion, and our passion is our task. The rest is the madness of art.”
Henry James


terça-feira, 8 de setembro de 2015

A generalização de grupos e a injustiça com os indivíduos



“Os motoristas são assim”, “as mulheres são assado”, “os gays fazem X”, “Homens de verdade agem de forma Y”. “Os judeus”, “os religiosos”, “os brasileiros”, "os reaças", os "esquerdopatas"... Todas estas declarações tem algo em comum: são generalizações.

Generalizações existem por uma boa razão; aliás, várias. A primeira delas é biológica. O cérebro que possuímos hoje foi moldado na natureza, por milhões de anos, para estar adaptado às demandas do mundo natural, com suas oportunidades (comida, água, abrigo) e perigos (predadores, intempéries, desastres naturais). Neste ambiente selvagem, não dá para perder tempo. Você dá de cara com outro animal, e ele pode ou não ser uma ameaça. Se ele for, e você achar que não é, você morre. Se não for, e você achar que é, você pode se garantir fugindo. Ou seja: é mais seguro pensar que se é uma ameaça (mesmo não sendo) do que o contrário.

Para ajudar a otimizar o julgamento no ambiente selvagem, nós aprendemos a associar padrões. Animais com grandes garras e dentes afiados provavelmente são carnívoros, arbustos se movendo podem ter predadores escondidos e à espreita, ruídos estrondosos podem ser um grupo de predadores ou outra coisa ruim. E assim por diante. E assim aprendemos a generalizar.

Na sociedade de hoje (que é bem diferente do mundo em que vivíamos há 100 mil anos atrás), a generalização é capciosa. Na ciência e na política ela tem objetivos definidos e uma metodologia, para quantificar, prever comportamentos e até ajudar na tomada de decisões (por exemplo, se é identificado em um grupo maiores taxas de suicídio, é possível avaliar as condições em que esses grupos se encontram – extrema pobreza, depressão, etc – e criar políticas para melhorar a qualidade de vida dos mesmos), como definir grupos com mais risco que outros a certas doenças (quem tem mais possibilidade de contrair câncer, de ter ataque cardíaco, etc).

Estou fazendo um resumo grosseiro da qualidade das generalizações, é verdade. Mas o que importa é que a generalização funciona quando precisamos ter uma ideia geral sobre um grupo para, por exemplo, tomar medidas que os beneficiem (como a vacina contra o HPV, que passou a ser aplicada no Brasil em jovens mulheres entre 11 e 13 anos por se saber que a vacina é mais eficaz nessa faixa etátia).

O problema da generalização começa quando se generaliza de forma leviana, o que nós fazemos o tempo inteiro. Nós dizemos que mulher é temperamental, que gays são promíscuos, que baianos são preguiçosos, que quem vê tv é burro, que quem lê livro é inteligente, quem cuida do corpo é superficial, que os motoristas são mal educados, que os pedestres são mal educados, que os políticos são corruptos, que os policiais são corruptos, que a polícia é opressiva. E por aí vai. E isso é extremamente prejudicial.

Por que é absurdo generalizar nesses casos? Por diversos motivos. Primeiro que essas generalizações, na absurda maioria das vezes, é mais baseada em preconceitos pré-estabelecidos do que em fatos. E segundo, e mais importante: No dia a dia, não lidamos com grupos; lidamos com indivíduos. E essa é uma distinção valiosíssima para se viver em sociedade. Darei alguns exemplos.

Numa matéria de um tempo atrás relacionada aos chamados “rolezinhos” (termo que ficou por um bom tempo na boca do jornalismo de massa), foi citado que a renda dos jovens da classe C (associados aos rolezinhos) é maior do que a renda das dos jovens de classes A, B e D juntas. O que isso quer dizer? Na prática, nada de muito relevante.

A chamada “classe C” é provavelmente um grupo com maior número de “membros”, então é de se supor que, em termos de grupo, a renda seja maior. Além disso, é claro que estamos falando de uma renda média (provavelmente uma média aritmética), o que não nos dá a dispersão dos valores. O que quero dizer com dispersão de valores? Quero dizer que, obviamente, os jovens de Classe C não ganham exatamente a mesma coisa. Uns ganham mais, outros menos. Uns ganham bem o bastante para estarem próximos da classe B, outros ganham baixo o bastante para estarem próximos da Classe D. Isso significa que, muito embora os jovens da classe C, como grupo, ganhem mais que as classes A, B e D juntas, individualmente, o poder aquisitivo de cada uma é bem diferente.

Não importa quanto é a renda média destes jovens, essa informação não serve de nada para, por exemplo, vendedores de lojas. Importa para eles (estou tirando da jogada decisões baseadas em preconceitos) se o indivíduo que entrar na loja pode pagar o produto ou não. O grupo ao qual ele pertence não faz a menor diferença, na prática. Até porque conheço pessoas pertencentes a classe A que não podem entrar numa loja popular porque estão tão endividados que não conseguiriam pagar nem um produto considerado barato.

Outro exemplo: Aqui na minha cidade, os motoristas (notem a generalização) costumam reclamar da falta de educação dos pedestres. Os pedestres (outra generalização), por sua vez, costumam reclamar que os motoristas são mal educados. Mas, quando no dia a dia, ambos, motoristas e pedestres, não se encontrarão com “os pedestres” ou “os motoristas”. Cada pessoa é um indivíduo em particular e ela pode ter ou não um comportamento considerado esperado por aquele grupo. Muitos motoristas acabam sendo mal educados com um pedestre por se basear numa atitude que é atribuída ao grupo e não àquela pessoa em específico (que o motorista não conhece, e pode inclusive ser um pedestre exemplar). O mesmo vale para o pedestre, ao tratar cada motorista (indivíduo) como detentor de todas as características atribuídas ao grupo.

Último exemplo: ano passado, creio, eu escrevi no Facebook sobre o “caso Sherazade”, criticando a mania do brasileiro de endeusar ou demonizar pessoas em particular, “tirando para Cristo”, como dizem popularmente. Muitos conhecidos se sentiram particularmente “ofendidos”. Esse é um ponto importante. Meu comentário se referia a um comportamento de grupo, "os brasileiros" (nas redes sociais, é muito comum as opiniões passarem de críticas a linchamento virtual rapidamente, se colocarmos todas as opiniões num mesmo saco e avaliar). Isso não significa que esta característica de grupo se aplique a todos os membros do grupo, um a um. Isso não significa que todo mundo que criticou a atitude da Sherazade a está demonizando, óbvio que não. A generalização mostra apenas uma tendência do grupo, não um fato determinado.


O que eu quero dizer com estes exemplos? Eu quero dizer que generalizações têm seu lugar, mas esse lugar não é no cotidiano, no tratamento com as pessoas. No cotidiano, lidamos com indivíduos, e cada indivíduo é único. Mesmo que aquele indivíduo faça parte de um grupo em que, em geral, aja de certa maneira, ao agir em relação a esse indivíduo como se ele fosse um “avatar” que representa todas as atitudes do grupo, há uma boa chance de você estar sendo injusto com essa pessoa, ou até de perder a oportunidade de conhecer uma pessoa ótima por simples generalização.

E tem outra: Ninguém faz parte de um único grupo. Um mesmo homem pode ser negro, evangélico, economista, vegetariano, sulista, praticante de esportes, ávido leitor de livros, fã de futebol, metaleiro, e assim por diante. Imagina se todos os clichês e/ou estereótipos relacionados a cada um destes grupos fosse relacionado a este homem. Ele seria um preguiçoso (mas ele não pratica esportes?) fanático capitalista vegetachato arrogante superficial (mas ele não lê livros?) e satânico (mas ele não é cristão?). Deu para perceber o quão ridículo é atribuir características de um grupo (mesmo se elas tivessem validade para o grupo) a um indivíduo específico?

Por que eu resolvi escrever sobre isso? Já faz um bom tempo que tenho notado que, a exemplo do que acontecia na selva há 100 mil anos atrás, hoje nós também tomamos nossas decisões baseadas nestas generalizações, que além de normalmente serem baseadas em preconceitos, não possuem metodologia nenhuma e não se aplicam em situações do dia a dia nos quais lidamos com pessoas, não grupos. E isso é perigosíssimo, ainda mais em tempos de polarização política e hostilização a grupos específicos (imigrantes, comunidade LGBT, mulheres, religiões de matriz africana, entre outros)

É compreensível que certos grupos sociais, por conta do pouco acesso à educação, não entendam isso. Mas é inadmissível para aqueles que, ao menos se consideram cultos, e principalmente formadores de opinião, usar a generalização para criar estereótipos baseados em situações particulares. Ou que decidam a respeito de indivíduos em particular tomando por base características de grupo.

Mas, se isso vem lá da nossa biologia, o que podemos fazer a respeito? Bem, não é porque o nosso cérebro tende a fazer isso que precisamos fazer. Vamos contra a “nossa natureza” o tempo inteiro. Usamos camisinha. Escolhemos não comer carne. Nos sacrificamos para salvar outra pessoa (ou outro animal). Usamos roupas. E assim por diante.

Sabendo que temos essa característica de generalização já de saída, podemos escolher agir baseado nessa generalização, ou não. Dependendo do caso, informação sobre um grupo é importante. Mas, na convivência com outras pessoas, só é importante lembrar que cada indivíduo é um ser humano, e merece o mesmo respeito e o mesmo benefício da dúvida que você esperaria que oferecessem a você.

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