“We work in the dark - we do what we can - we give what we have. Our doubt is our passion, and our passion is our task. The rest is the madness of art.”
Henry James


quarta-feira, 2 de setembro de 2015

Tem alguma coisa errada com as pessoas. Com TODAS as pessoas


O mundo está uma merda. Por mundo, eu quero dizer, a sociedade. Todas as sociedades, ocidental, oriental, capitalista, comunista, democrática ou autoritária. Com raras exceções, nada do que a gente fez até agora funcionou para eliminar os principais problemas da humanidade. Podemos dizer que houve melhorias, é verdade. Mas só o fato de estarmos diante de um colapso ambiental, ainda ter pelo menos metade da população do planeta vivendo com menos de 4 dólares por dia e termos colocado em extinção diversas espécies animais apenas pela nossa atuação no mundo mostra que, por mais que tenhamos tido melhorias, elas não parecem estar nem sequer perto de ajudar a resolver estes problemas.

Não é muito difícil concordar com o primeiro parágrafo. Afinal, estamos o tempo inteiro sendo bombardeados com más notícias, em maior ou menor escala. A impressão que dá é que as piores características dos seres humanos acabam por se sobressair em relação às características boas. Mas, se isso é mesmo verdade, a pergunta que fica é: por que ainda estamos aqui? Por que a humanidade não se destruiu há muito tempo? Não que não tenhamos tentado, é claro.

Mas o fato é que ainda estamos aqui. E somos todos nós, boas pessoas. Já perceberam isso? Todo mundo é uma boa pessoa. Não importa o quanto você ache uma pessoa desprezível, sempre tem, ao mesmo tempo, um sem número de pessoas que pensa exatamente o contrário em relação a essa pessoa. E essa pessoa, seja ela quem for, sempre se considera uma boa pessoa. Madre Teresa se considerava uma boa pessoa. Getúlio Vargas também. Hitler. Bolsonaro. Fidel Castro. Nietzsche. Buda. João Paulo II. Pedro Álvares Cabral. Roberto Carlos. Princesa Diana. Rachel Sherazade. Ayrton Senna. Você. Eu.

Todos se consideram boas pessoas.

Mas, isso não pode ser inteiramente verdade, não é? Se assim fosse, o mundo não teria tantos problemas. Se todos fossem, de fato, boas pessoas, então não haveria crimes, ganância, escravidão, preconceito, egoísmo. Aliás, aparentemente a única coisa que todo mundo concorda, é que o mundo tem problemas. O que as pessoas discordam, na verdade, é sobre quais são os problemas e o que se deve fazer para resolvê-los.

Antes a diferença de opiniões fosse o maior problema. Aliás, eu não sei qual o maior problema. Mas, antes da diferença de opiniões ser um problema, há um aspecto anterior que merece ser avaliado.

Dizem que todo brasileiro é técnico de futebol. Isso acontece por que os brasileiros (em geral fanáticos por este esporte), sempre possuem a solução para o time sagrar-se campeão. Sempre tomam decisões melhores que as do técnico, e a solução é sempre óbvia. Mas, com o advento das redes sociais, vê-se que o brasileiro não age assim apenas com futebol. Temos a solução para tudo: educação, saúde, política, sociedade, sistema penal...Enfim. Sabemos exatamente o que deve ser feito, nossa solução é sempre melhor, e o mais importante: para nós, ela é óbvia.

Então por que o país (e o mundo) ainda está longe de ser um paraíso? Se conhecemos as soluções, por que ainda temos tantos problemas? Não pode ser só uma questão de diferença de opinião.

As pessoas sempre sabem o que é melhor para o outro. Sabem como você deve agir. O que você deve pensar. Do que você deve gostar. Que causas elas devem defender. Mas por que as pessoas não sabem o que elas mesmas devem fazer em relação a essas coisas?

Ter opinião é fácil. Colocar a opinião à prova é que é complicado. Por que, numa situação real, as coisas não são como em nossa mente, onde o cenário é idealizado e não está sujeito a fatores imprevisíveis. Raramente opiniões podem ser mantidas sem nenhuma alteração quando postas à prova. Mas quase ninguém põe sua opinião à prova. Prefere mantê-la confortável em sua mente, onde ela está segura e, mais importante, permanece inalterada e perfeita.

Sempre falamos sobre quem nos engana. Mas raramente pensamos sobre como enganamos a nós mesmos. E fazemos isso o tempo inteiro, para bem ou para o mal. O que você é para você mesmo nunca é a mesma coisa que você é para outra pessoa. Já parou para pensar nisso? Geralmente, nos vemos como pessoas muito melhores do que realmente somos para os outros. Às vezes, nos vemos como menos relevantes do que realmente somos. Frequentemente, nos vemos como mais informados, mais inteligentes e, na maioria das vezes, nos vemos como os únicos que realmente entendem o grande esquema das coisas. Se pelo menos isso fosse verdade em algum caso. Você pode ser bom em muitas coisas, mas a maior das suas qualidades, de longe, é a habilidade de enganar a si mesmo.

E acho que é isso que há de errado com as pessoas. Não a capacidade de autoengano per se, pois esta é uma consequência da forma como nosso cérebro evoluiu com o passar das eras. Mas a falta de percepção de que esse autoengano existe. Todo nosso discurso já parte do pressuposto de que nossas conclusões são cristalinas, que não passaram por nenhum filtro. Mas, antes mesmos de filtros culturais e dogmáticos, há o filtro do autoengano. Que está na gênese do nosso pensamento e, portanto, está na origem das nossas opiniões e visões de mundo. Aí eu pergunto: Como é possível que tentemos melhorar as coisas aqui fora, se não podemos confiar no como nossas opiniões são formuladas em primeiro lugar?

Talvez essa habilidade autoengano é que seja o verdadeiro “vilão” da história. Agimos como se estivéssemos tão certos do que devemos fazer que, às vezes, podemos estar fazendo o contrário do que queremos, e nem nos damos conta. Não somos capazes de julgar a nós mesmos. Mas também não somos capazes de julgar os outros, uma vez que o autoengano nubla nosso julgamento a respeito do mundo e das outras pessoas. Em outras palavras, por não termos capacidade de julgar a nós mesmos de forma transparente, por tabela não conseguiremos julgar outros também. É um impasse.

Será que poderemos um dia resolver isso? Honestamente, não sei. Nem sequer sei se minhas conclusões estão corretas. Por que até esse texto é permeado por opiniões e visões de mundo que possuem certa dose de autoengano.

Então, no fim das contas, para que este texto serviu? Na pior das hipóteses, para a reflexão de vocês. Na melhor, para a minha.

0 comentários:

Postar um comentário

Algures na Web

Postagens populares