“We work in the dark - we do what we can - we give what we have. Our doubt is our passion, and our passion is our task. The rest is the madness of art.”
Henry James


segunda-feira, 5 de outubro de 2015

Dá para levar o Brasil a sério?

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Todos os dias eu leio tanto absurdo nas redes sociais, de coisas que simplesmente não fazem sentido a pensamentos que me fazem ter medo de conhecer algumas pessoas pessoalmente, que acabo por vezes repetindo o velho mantra do senso comum: o Brasil é um país que não dá pra levar a sério.

Motivos pra isso não faltam. Impunidade é um dos muitos exemplo que posso dar aqui. Mas repetir pensamentos de outrem, sem fazer pensar duas vezes antes do que está fazendo é, pra mim, um dos piores.

Parece exagero, mas não é. Para dar um exemplo: Imagine a pessoa X que, após aquela celeuma toda com os beagles e o instituto Royal (lembram dessa história?), ao dizer nas redes sociais que deve-se fazer testes em presos, e não em animais, tem seu “desejo” realizado magicamente. E, a partir daquele momento, presos são usados em (supostamos) cruéis e dolorosos testes científicos. Seria ótimo, não?

Só que X se esquece que vive num país onde criminosos "de verdade", profissionais, não costumam ir para a cadeia. E que as penitenciárias são basicamente depósitos de negros, pobres e doentes mentais. Alguns, é verdade, cometeram crimes graves, como estupro e assassinado. Mas X se esquece também que a lei brasileira é “igualitária” às avessas: assassinos, estupradores e traficantes estão na mesma cela com gente que brigou no bar quando estava bêbado, que roubou comida quando estava com fome, que estava dormindo em algum lugar considerado proibido por que não tem onde morar ou simplesmente pessoas que foram presas injustamente.

Se o desejo de X fosse realizado, a maior parte dos presos usados nesses testes seriam pessoas que, na falta de um termo melhor, são mais vítimas do que criminosos. Engraçado como X parece tão passional com relação a injustiça contra animais, mas pouco se importa com a injustiça que seria cometida por "culpa" do seu pensamento limitado.

É claro que essa é uma situação hipotética. Mas poderia não ser. Basta que uma criança cresça com o pai ou a mãe vomitando esse tipo de ideia e acabe se tornando um adulto em uma função onde ele é formador de opinião ou toma decisões, e temos uma receita para o desastre. Temos que sempre lembrar que um erro não justifica o outro (e que coisas como o ativismo animal, que é de fato muito justo, não pode ser usado para vomitar preconceitos disfarçados de opiniões utilitaristas).

Outro ponto sobre não pensar muito a respeito do que se fala é que, frequentemente, as pessoas disparam opiniões dos outros como se fossem suas, só por que superficialmente elas parecem fazer sentido. E não percebem que, assim, estão sendo usados como "mulas" para disseminar ideias que privilegiam apenas alguns poucos.

Um tempo atrás um diálogo entre duas pessoas (do qual vou resumir e não citar nomes para não comprometer ninguém) discorria sobre um vídeo do Porta dos Fundos que brincava com a ideia de ver Jesus em qualquer coisa. Marco Feliciano fez questão de citar o vídeo no twitter e pedia aos fiéis que denunciassem. Um desses fiéis fez o que seu pastor pediu e, quando questionado por que, ele respondeu que aquilo era uma afronta. Quando alguém falou que o vídeo era uma crítica a quem vê jesus em tudo, ou seja, quem fica adorando imagens, e o questionou por que ele acharia isso uma afronta já que ele, como evangélico, também não deveria acreditar em imagens, a "ovelha" do pastor não soube o que responder. Se deu conta que nunca tinha parado pra pensar no que estava fazendo, só estava seguindo ordens. Ou seja, se ofendeu com um vídeo de humor por que alguém disse que ele deveria se ofender.

O brasileiro é muito bom em fazer humor. Brincamos com tudo, não deixamos escapar uma. Num país onde a vida é tão difícil, é um alívio poder rir um pouco da nossa própria desgraça, isso é verdade. E o humor pode ser usado para crítica social e levar à reflexão. O problema é que rir O TEMPO TODO do que nos faz mal não é bom humor: é masoquismo. É aceitar de bom grado, e com um sorriso no rosto, levar pancada dia após dia.

Eu poderia passar horas dando outros exemplos como os citados no texto, mas acho que não é necessário. Ideias passadas de pessoa a pessoa, indiscriminadamente e sem a menor reflexão, são prejudiciais a curto, médio e longo prazo e mostram mais do que apenas a alienação generalizada do país: reflete também um microcosmo do que é o país como um todo: formado por uma sociedade que faz tudo de forma superficial, e não se compromete com nada. O resultado é uma fina casca que, quando quebrar, vai espalhar problemas para tudo quanto é lado.

Não sei se dá para levar o Brasil a sério. Mas deveríamos levar. Por que, se a gente não fizer isso, logo logo ninguém mais vai estar rindo.

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