“We work in the dark - we do what we can - we give what we have. Our doubt is our passion, and our passion is our task. The rest is the madness of art.”
Henry James


segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

As impressões de Darwin sobre o Brasil


Em 1831, Charles Darwin embarcou no navio Beagle, numa viagem de 5 anos ao redor do mundo para coletar informações sobre geologia, fauna e flora destes locais - informações que dariam a ele, não só o insight, mas as evidências necessárias para sua teoria da evolução por seleção natural.

Durante estes 5 anos o navio fez duas passagens pelo Brasil, devidamente registradas pelo naturalista, com duas impressões bem diferentes a respeito do país. Na primeira, exalta as belezas naturais e as diferenças do Brasil com a Inglaterra; na segunda, vai embora torcendo para nunca mais voltar a um país de escravos, descrevendo seu desprezo pela cultura de escravidão que imperava no Brasil naquele momento. Os relatos estão disponíveis em seus diários de viagem, que foram publicados no Brasil em duas edições, com o título de Viagem de um Naturalista ao Redor do Mundo".

Vale a pena, para curiosidade ou reflexão, comparar estas duas anotações de Darwin:


"19 de abril de 1831
Durante todo o resto de minha permanência no Rio de Janeiro, residi em uma quinta na enseada do Botafogo. Era impossível desejar coisa mais deliciosa que passar assim algumas semanas num país tão magnífico. Na Inglaterra, qualquer pessoa amiga da história natural sempre tem, nos passeios, alguma coisa que lhe atraia a atenção; mas aqui, na fertilidade de um clima como este, são tantos os atrativos que não se pode nem mesmo dar um passo sem lamentar a perda de uma novidade qualquer.(...)Todos já ouviram falar da beleza do cenário da enseada de Botafogo. A casa em que me achava hospedado estava bem debaixo da conhecida montanha do Corcovado. (...) Nada mais admirável que o efeito dessas colossais massas redondas de rocha nua emergindo do seio da mais luxuriante vegetação."


"19 de agosto de 1836
No dia 19 de Agosto deixamos finalmente as costas do Brasil. Dou graças a Deus, e espero nunca mais visitar um país de escravos. Até o dia de hoje, sempre que ouço um grito distante, lembro-me vivamente do momento doloroso que senti quando passei por uma casa em Pernambuco (Recife). Ouvi os mais angustiosos gemidos, e não tenho dúvida nenhuma de que algum miserável escravo estava sendo torturado. Entretanto, sentia-me tão impotente quanto uma criança, até mesmo para dar demonstrações. Julguei que os gemidos partiam de um escravo trucidado, pois me disseram ser esse o caso, em outra ocasião. No Rio de Janeiro, morei em frente de uma velha senhora que possuía parafusos para comprimir os dedos de suas escravas. Estive numa casa onde um jovem mulato sofria, diariamente e a cada hora, aviltamentos, castigos e perseguições suficientes para despedaçar o espírito mesmo do animal mais desgraçado. E esses atos são praticados e paliados por homens que professam amar ao próximo como a si mesmos, que dizem crer em Deus e oram para que Sua vontade se faça sobre a Terra."
-- Charles Darwin, Viagem de um naturalista ao redor do mundo.

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