“We work in the dark - we do what we can - we give what we have. Our doubt is our passion, and our passion is our task. The rest is the madness of art.”
Henry James


quinta-feira, 30 de junho de 2016

Um mundo pós-capitalista é possível?



Este é um dos temas em que o padrão é resultar em comentários irrefletidos, seja defendendo ou condenando o que foi escrito (muitas vezes sem nem ler o texto). Para algumas pessoas, a resposta é óbvia. Há, é claro, aqueles que acreditam que o capitalismo é um “mal necessário”, o melhor que a gente tem, e que, se o capitalismo foi o sistema econômico que acabou predominando, então provavelmente não há uma alternativa que seja mais eficiente para democratizar o acesso a bens e serviços. Vou ignorar este pressuposto apenas para efeitos de argumentação (ou não teria sentido fazer este texto em primeiro lugar) e partir do princípio de que é possível superar o capitalismo e pensar numa coisa nova (o que quer que seja essa “coisa nova”).

Primeiro, vamos falar do “vilão”

Normalmente, quando se fala em capitalismo, a tendência é um exagero ideológico para algum extremo: De um lado, os exageradamente otimistas quanto ao que o capitalismo foi capaz de fazer em prol do progresso e da justiça individual; de outros, os exageradamente pessimistas quanto aos danos sociais que o capitalismo proporciona. Como já tem muito texto (demais para o meu gosto) defendendo ambos os extremos, vou tentar fazer uma análise mais equilibrada, correndo o risco (frequente) de ser mal interpretado.

Não é surpresa que o sistema econômico capitalista tenha seus problemas, e também que tenha suas qualidades. Se de um lado a divisão social do trabalho garantiu algo que era virtualmente impossível no passado (como ascensão social, só para dar um exemplo), por outro lado esse mesmo capitalismo manteve alguns dos vícios de outros sistemas (em especial a tendência a quem tem mais poder usar este poder para ter mais poder, dificultando cada vez as chances do empoderamento de outrem) e criou outros, como o consumismo desenfreado e mau uso dos recursos naturais.

Muitas vezes os “contras” se sobressaem mais do que os “prós”, pela própria configuração do capitalismo e pela visibilidade daqueles que mais buscam se aproveitar dele. Ao lutar por menos regulação na economia, os “liberais econômicos” apenas ressaltam o quanto uma economia não regulada tende a um tipo de desequilíbrio injusto de mercado (o contrário do que se pretende), onde quem tem mais sempre vai ter mais oportunidades de ter mais, minando as chances de ascensão de que quem tem menos (independente se isso é “merecido” ou não – o conceito de “mérito” é uma outra questão que, por enquanto, não vem ao caso). Além disso, o fato de estes mesmos defensores da regulação mínima/não regulação implorarem por regulação econômica quando a coisa aperta (especialmente em tempos de crise) soa hipócrita, ainda mais considerando que normalmente são indivíduos que representam megacorporações, pessoas que acumulam grandes fortunas (desproporcionais em comparação com o resto da população) e pessoas em posições desproporcionalmente privilegiadas* na sociedade que defendem tais ideias.

Por outro lado, como sistema em si - e excluindo quem busca se aproveitar dele ignorando as necessidades de outros – o capitalismo possui, é claro, méritos. Hoje é possível distribuir bens e serviços a uma população muito mais abrangente graças a essa configuração. Ao menos na teoria, ninguém é “dono” do sistema, como no feudalismo ou nas aristocracias do mundo antigo (embora possamos argumentar que os donos do capital são os donos do capitalismo, mas não é a isso que me refiro). Qualquer um pode almejar uma posição socioeconômica mais elevada e, proporcionalmente, há bem menos pessoas que passam fome no mundo hoje em dia. A configuração do sistema capitalista permitiu uma maior democratização de bens e serviços e a globalização a um nível que não seria possível em sistemas antigos. A economia capitalista se tornou a linguagem comum entre nações acentuadamente diferentes, provavelmente evitando muitas guerras (sim, sei que também criou algumas), que agora são mais travadas no setor econômico. Na teoria, o capitalismo parece uma boa ideia.

O que realmente importa nesse debate

Quando um debate sobre o sistema capitalista vem à tona, o mais comum é debater sobre os prós e os contras do capitalismo, e se a solução é manter ou mudar. Este para mim é o maior equívoco sobre o debate e o motivo pelo qual ele nunca vai para frente: atribuir ao sistema capitalista um juízo de valor (para o bem ou para o mal), ao invés de analisá-lo de forma prática.

Considerando que o capitalismo é o sistema predominante, o verdadeiro debate deveria ser em torno da pergunta: Partindo do conhecimento que temos de outros sistemas e do que temos de experiência com o sistema capitalista até aqui, é possível fazer melhor que isso? Ou seja, é possível melhorar a democratização de bens e serviços, diminuir a insegurança, aperfeiçoar as relações humanas e melhorar as liberdades individuais? Uma visão pessimista afirmaria que melhor do que está, não fica, que os limites do sistema são normalmente limites alheios a ele (como nossas tendências e necessidades biológicas, por exemplo). Uma visão otimista afirmaria que o contrário: que é possível, superar o capitalismo, e que inclusive é este sistema que acentua, promove e/ou gera muitos dos problemas humanos. Segundo essa visão otimista, é possível, sim, fazer melhor. Ambas as visões possuem suas verdades, ao menos em parte.

É claro que a resposta para essa pergunta exige que se considerem diversos fatores, muitos deles alheios ao próprio sistema, de fato, como questões de natureza humana (o egoísmo é acentuado no sistema capitalista e pode ser diminuído, ou é inevitável e independente do sistema?); questões éticas (é justo que seja possível a uma única pessoa ou um pequeno grupo possuir desproporcionalmente muito mais, em comparação com o resto de uma sociedade que, direta ou indiretamente contribuiu com esta fortuna?); questões sociais (a violência e a criminalidade é incrementada num sistema capitalista ou não é possível escapar dela?); questões educacionais (educar para ser o que quiser, independente das necessidades de outros, para ser um cidadão que pensa no coletivo em primeiro lugar, ou pra ser um consumidor, que ajuda a manter o sistema funcionando?); questões políticas (interferência total, nenhuma interferência ou interferência quando necessário para evitar excessos?); entre outros. Ter uma posição sobre estes e outros fatores é o que pode definir o que fazer a seguir.

Sim, eu sei, usar esse filme pra ilustrar a situação é um clichê. 


Mas e as alternativas? Elas existem?

Quando se fala numa sociedade pós-capitalista, o normal é pensar numa transição para algum tipo de socialismo e/ou comunismo (mesmo que, na prática, um seja um sistema econômico e outro seja um sistema de governo, ou seja, não seriam fielmente comparáveis entre si), uma vez que essa dicotomia direita/esquerda é o que dá a tônica dos debates sociais e políticos, pelo menos no Ocidente. Mas isso é algo um pouco contraditório, se considerarmos que estamos querendo pensar em seguir em frente; afinal, são sistemas/ideologias baseadas em pressupostos anacrônicos, produtos de uma época muito específica** - e o mundo seguiu adiante disso também.

Há uma frase, normalmente atribuída ao Einstein (que não vou dar como certo que é dele, mas o que importa aqui é a mensagem), que diz: “Você não pode resolver um problema com a mesma mentalidade que tinha quando o criou”. Acredito que existe um bom argumento a partir daí. Capitalismo, Comunismo, Anarquismo, Monarquia, enfim... Tudo isso é parte da antiga mentalidade. Se quisermos realmente superar o capitalismo e seguir adiante para algo melhor, precisamos esquecer os modelos antigos e começar a pensar em algo realmente novo, mais adequado à nossas necessidades e problemas atuais (a crescente população mundial, as acentuadas diferenças culturais, a distribuição de bens e serviços, o gerenciamento dos recursos limitados, a individualidade dentro da diversidade, a progressão geométrica da inovação tecnológica, a informação em tempo real, novos modelos de relacionamento interpessoal, entre outros).

Falar é fácil

Pensar em algo totalmente novo é muito difícil; alguns diriam que é quase impossível. Não seria possível às pessoas que viviam em uma sociedade feudal pensar num sistema como o capitalista, assim como não foi possível aos aborígenes brasileiros entenderem a cobiça dos conquistadores portugueses por pedras das quais eles não viam nada demais. Nenhum dos clássicos Filósofos gregos, as maiores mentes do seu tempo, conseguiu imaginar uma sociedade pós-escravidão em suas visões utópicas de mundo e mesmo o pós-vida*** na maioria das religiões é apenas uma imitação do sistema social/político da sociedade onde ela se encaixa.

Como pensar em algo novo? Essa é a pergunta de um milhão de dólares. Há quem se debruce sobre isso. Jaques Fresco há décadas tenta divulgar sua ideia de sociedade pós-capitalista, chamada de Projeto Vênus que, como toda ideia que propõe uma solução para todos os problemas do mundo, encontra adeptos (de uma forma quase religiosa) e críticos. De qualquer maneira, é pelo menos uma tentativa sistematizada e detalhada de criar um novo sistema, diferente dos outros que a humanidade já tentou, e levando em consideração os problemas e as possibilidades do mundo e da tecnologia atuais. Não acredito que exista alguma outra alternativa tão elaborada.



Então não é possível pensar num sistema totalmente novo – e melhor?

Bem, a boa notícia é que, durante toda a história da humanidade, novos sistemas foram criados, mudanças no status quo foram realizadas e alterações em muitos aspectos da mentalidade das culturas foram transformadas. A escravidão deixou de ser vista como algo natural, as mulheres passaram a ter participação ativa na sociedade, refinamos nossa ética com relação a punições. Passamos de uma Europa profundamente religiosa a uma Europa mais racional; deixamos a herança aristocrática e a autoridade de lado e nos focamos nas competências particulares, e por aí vai. Mudanças aconteceram. Não há nada que indique não vão continuar acontecendo.

Pode-se argumentar que ainda há muito que se fazer a respeito dos temas citados, que muito mudou, mas na prática nada mudou. Mas a verdade é que vivemos num mundo onde hoje, por exemplo, é socialmente mal visto depreciar alguém pela cor da pele. É um avanço. É possível avançar mais? Essa é a pergunta que deve dirigir também a busca por uma sociedade pós-capitalista. Se pensarmos que a resposta para a pergunta é “não”, nunca vamos avançar, pois nos fechamos para novas ideias e nunca seremos capazes de superar nossa própria limitação mental. Vamos continuar tentando resolver problemas com a mesma mentalidade de quando os criamos. Mas, se pensarmos que a resposta para essa pergunta é “sim”, já avançamos um passo. O próximo é pensar no “como”.

Não creio que conseguiremos chegar a soluções tentando trazer de volta soluções do passado. Mas reconhecer o passado, aprender com ele, tê-lo como referência, certamente é uma decisão sábia. Não dá para colocar toda a humanidade em animação suspensa e nos acordar uma década depois com uma mentalidade “zerada”e um mundo novo já pronto, novinho em folha. Obrigatoriamente um novo sistema vai ter que ir crescendo aos poucos na cabeça das pessoas. Um período de transição é inevitável. É por isso que o título deste texto se refere a um mundo “pós”-capitalista e não “sem" capitalismo. O que quer que venha depois disso, dificilmente será algo criado do zero e sim o resultado dos acertos e dos erros de tudo aquilo que veio antes. Esse é o verdadeiro significado de “progresso”.

Então, é possível pensar num mundo pós-capitalista? Se a resposta fosse “não”, este texto teria sido um desperdício do tempo do leitor. E já temos visto pequenas mudanças. Economias criativas, comunidades participativas, plataformas colaborativas, salário base independente de emprego, moedas virtuais descentralizadas, impressão 3D, entre outros, trazem novas soluções para velhos problemas. Algumas dessas ideias desaparecerão com o tempo sem muito impacto. Algumas certamente vão ficar, e têm o potencial para mudar as coisas de forma que nem sonhamos, assim como as sociedades do passado não sonhavam em mundos pós-escravidão, pós-feudalismo ou pós-escambo.

Mas na verdade eu acho que a pergunta precisa ser melhor formulada. Não se trata de pensar se superar o capitalismo é necessário e sim se conseguimos fazer melhor do que o que foi feito até aqui. E eu acredito que conseguimos. A história prova isso. Se realmente o faremos, aí é outra questão, talvez para um outro texto.


*Ou simplesmente indivíduos que almejam tais posições.
**E o mesmo pode ser dito do próprio capitalismo, certamente.
***Considero o termo “vida após a morte” inadequado, por ser uma contradição em si.

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